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domingo, 19 de fevereiro de 2017

"Momentos são como palavras, fogem ao nosso controle." 
___Sarah D'Araújo (23/03/1998).
#escrevendo #poesia #livro #heteronímia

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Uma esperança teimosa

Uma esperança teimosa


Uma esperança teimosa
Ricardo Gondim

Antecipo-me ao dia. Antes do sol enfurecer, desperto com sede. Não consigo nomear o que me falta. Carrego uma ausência crônica. Convivo com o vazio existencial comum a poetas e profetas. Sofro de uma, ainda não catalogada, Síndrome da Nostalgia Difusa.
Minha alma não se conforma com faltas. A presença viva dos que já morreram atormenta. Quero de volta minha mãe, meu pai, o Allison. Sinto cada um deles impregnando a poesia que leio, a pintura que aprecio, a música que ouço. Digo para mim mesmo: “vou contar…”. Pego o telefone, mas antes do sinal, sei: nenhum deles existe; todos foram jogados em um fundo de armário.
Assumo a minha melancolia. Farejo cheiros em busca do tempo perdido. Sabores, fotografias, músicas guardam a magia de devolver um passado que a poeira de décadas enterrou. Visito e sofro mais.
Bisonho, saio para correr. Encaro ruas e avenidas. Varo quilômetros. Encharco de suor. Continuo inconsolável.
No crepúsculo, os olhos agoniam. Como é triste a palidez da vida. Forço um novo jeito de mirar o mundo; desejo-o colorido. Mas não consigo escapar, um sofrimento injusto e desproporcional agride. Revolvo-me numa culpa esquisita.
Sou privilegiado. Todo o meu esforço para aliviar o suplício da miséria parece pífio. Confortável, não desenvolvi senso crítico. Convivi, complacente, com uma estrutura política perversa. Acostumei-me à miséria. Ceguei os olhos da alma. Calei quando discriminavam, privilegiavam, marginalizavam. Quando compreendi, minimamente, os perigos do poder já estava exausto. Envelheço enquanto corrupção sistêmica e vícios históricos permanecem intactos.
Anoitece. Meu coração não se acalma. Uma força estranha impulsiona a desejar o que desconheço. Parecido com o Chico, murmuro (desafinado, claro):
O que será que será que tanto quero,
e que “vive nas ideias desses amantes
que cantam os poetas mais delirantes
que juram os profetas embriagados
está na romaria dos mutilados
está nas fantasias dos infelizes
está no dia a dia das meretrizes?”.
Viagens deliciosas se esgotaram (não suporto o estresse do aeroporto). Esperar a festa perdeu a graça.
Durmo com a sensação de o mundo girar na decadência. Tudo estanca na efemeridade. Dos amigos, remanesce desgaste; dos ideais, decepção; da religião, desencanto.
O coração já não se enfeitiça. Ruíram Porto Seguro, Campos Elísios, Nirvana. Somem os escombros da Cidade de Refúgio. Todo o desterro é inóspito. Não encontro sombra onde possa, calmamente, despir as estopas do lamento. Não sinto uma brisa que espalhe as cinzas do meu arrependimento.
Sobra uma esperança teimosa: eterno dever de persistir, mesmo sem motivo.

Soli Deo Gloria

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012



"Às vezes, na estranha tentativa de nos defendermos da suposta visita da dor, soltamos os cães. Apagamos as luzes. Fechamos as cortinas. Trancamos as portas com chaves, cadeados e medos. Ficamos quietinhos, poucos movimentos, nesse lugar escuro e pouco arejado, pra vida não desconfiar que estamos em casa. A encrenca é que, ao nos protegermos tanto da possibilidade da dor, acabamos nos protegendo também da possibilidade de lindas alegrias. Impossível saber o que a vida pode nos trazer a qualquer instante, não há como adivinhar se fugirmos do contato com ela, se não abrirmos a porta. Não há como adivinhar e, se é isso que nos assusta tanto, é isso também que nos dá esperança." ~ Ana Jácomo

Queria ser...


Ah como eu queria ser um palhaço
Levar alegria pra todo lado
Encantar com magia o coração cansado
Reviver o sorriso em um rosto amarrado

Ah como eu queria ser um palhaço
Emocionar a noie com a luz do dia
Transformar tristeza em alegria
Dominar com o riso toda apatia

Ah como eu queria ser um palhaço
Jogar tudo pro alto e correr pro abraço
Fazer de todo encontro um forte laço
Ser o Pitaco, o Boso e até o Amasso

Ah como eu queria ser um palhaço
Pra no fim dizer: 'chega de rima, acabou'
Sair do picadeiro, fechar as cortinas
E continuar a fingir de amor a própria dor.